quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O chão foi-se-me dos pés...

A Rute tem mais uns 10 anos que eu. Tem uma cara marcada,mas um olhar doce. Recebeu-me em casa, humilde, sem peneiras. Falou abertamente e não se incomodou quando as lágrimas lhe assomaram aos olhos. Sorriu levemente quando viu que eu tinha a pele dos braços arrepiada. A voz entorpecia quando repetia "nem quero imaginar" e ela dizia "espero que nunca sequer imagine".

O filho da Rute foi assassinado em Fevereiro. Morreu à mão de dois amigos, a quem, ironicamente, tratava como "irmãos". Foi brutalmente espancado por uma mentira. Foi torturando com uma violência atroz por quem confiava. Morreu sozinho, abandonado, nuns ermos barracões, quanto a mãe já o procurava desesperada por não ter ido jantar a casa.

Passaram oito meses e a Rute recebeu-me em casa e falou abertamente de todos os momentos pelos quais passou naquele dia, naquela noite, nos profusos meses seguintes...

E e ali....com uma vontade enorme de simplesmente a abraçar... no final foi ela que me colocou a mão no ombro: "Temos de ir vivendo. Só espero que se faça agora justiça. Ele não voltará e as saudades apertam tanto, mas temos de ir vivendo, não é?".

O chão foi-se-me dos pés...

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