terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Caterine

Nunca fui a miúda mais gira do liceu. Era tímida e os meus dentes de coelho inibiam-me. Era só a miúda fixe, divertida e que colocava os rapazes à vontade... Uma táctica infalível para conquistar os mais populares, diga-se! Resultava e eu ficava vaidosa e até me esquecia dos dentes de coelho.... Uma vez numa aula de filosofia, numa das minhas indagações sobre um qualquer filósofo, o professor topou a léguas que eu estava realmente a meter àgua, mas de tão convincente deixou o meu raciocínio prosseguir ... Deu o toque e safei-me, mas antes de sair da sala ele chamou-me e disse: "Tens a sorte de ter carisma... E um 'je né sais quoi' de Caterine De Neuve". Fugi dali roxa de vergonha e cismei na tal Caterine, que os meus 16 anos, ainda não me tinham apresentado. No mesmo intervalo fui à biblioteca, sim eu sou do tempo em que não havia google, mas nada desse nome! Passou o tempo e um dia dei com a Caterine na mesa da sala de jantar numa daquelas revistas da moda.... Fiquei cidrada. A fotografia era a preto e branco, parecia tão casual, mas aquele olhar lânguido não me deixou indiferente. Estava de cigarro na mão. Que pinta! Entendi então que tinha sido elogiada e os meus dentes de coelho nem por sombras perturbaram ali a minha auto estima. Ao professor de filosofia, passei a olhar com uma certa pose enigmática que espero que ele não tenha entendido como insinuação, e perante os colegas adoptei una atitude de diva, com os devidos ajustes à escola secundária, querendo ser olhada como uma mulher distinta. E, claro, comecei a fumar.

Sem comentários:

Enviar um comentário